terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Ferreira

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Nega-me

Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Constante Diálogo

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
..................................o semelhante
..................................o diferente
..................................o indiferente
..................................o oposto
..................................o adversário
..................................o surdo-mudo
..................................o possesso
..................................o irracional
..................................o vegetal
..................................o mineral
..................................o inominado

Diálogo consigo mesmo
..................................com a noite
..................................os astros
..................................os mortos
..................................as ideias
..................................o sonho
..................................o passado
..................................o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
.................................................e
tua melhor palavra
...........................................ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

um poema

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira

sábado, 2 de janeiro de 2010

desejos

Que venha coragem.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

o homem em eclipse

Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se.

– A data! Digam a data,
a datasinha, faz favor!

– Qual data! Foi por decreto
que o homem se eclipsou,
foi só manobra, espertice,
um, dois, três e, pronto, é noite,
que nem a Lua apareça
seja de que lado for!

Uns seguraram-se logo,
eram espertos bem se viu,
outros caíram ao mar
com cabeça pernas e tudo.
Quanto a mim perdi a calma,
fiquei desaparafusado,
tradição, cultura, estilo,
certeza, amigos, fatiota.
Tudo fora do seu sítio
-um desaparafuso terrível!

Segurem-me, camaradas,
sinto pernas a boiar,
cheiro fantasmas, enxofre,
estou aqui mas posso voar,
o parafuso da língua
vai partido, vai saltar.
Agarrem-me!Agarra!Pronto.
Pari o mais leve que o ar.

Mário Cesariny