quarta-feira, 13 de junho de 2007

Lembra-te



Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny

terça-feira, 12 de junho de 2007

Além-tédio



Nada me expira já, nada me vive ---
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Wish You Were Here



So, so you think you can tell
Heaven from hell
Blue skies from pain
Con you tell a green field from a cold steel rail
A smile from a veil
Do you think you can tell

And did they get you to trade your heroes for ghosts
Hot ashes for trees
Hot air for a cool breeze
Cold comfort for change
And did you exchange a walk-on part in the war for a lead role in a cage

How I wish, how I wish you were here
We’re just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year
Running over the same old ground
What have we found
The same old fears
Wish you were here

Pink Floyd

domingo, 10 de junho de 2007

Bom Conselho


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e pego a tempestade

Chico Buarque

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Mudar de Vida


Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser assim?...

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

António Variações

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Dias úteis


Dias úteis
às vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidade
no percurso de um só dia

Dias úteis
são tão frágeis as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?

Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente
transparente
quem a não receberia?

Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis

Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudencia
fazem os prazeres do dia

Dias raros
como os ares, rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?

Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas
cristalinas
quem as não perseguiria?

Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros

Por pretextos talvez fúteis
a alegria é que nos torna
os dias úteis

Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros

Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros

Sérgio Godinho

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O deserto inominável



O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.

José Jorge Letria

terça-feira, 5 de junho de 2007

Agora, apodrecer.


Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...

...mas apodrecer.

Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...

... mas apodrecer.

Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,

Sim, apodrecer ...

"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...

... mas apodrecer!

Sujar estrelas.

José Gomes Ferreira

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Conhece-te a ti próprio


Conhece-te a ti próprio.
Não dês ouvidos a rumores
Nem ajas ou fales sem pensar primeiro;
Sê acessível, simples mas sem vulgaridade;
Aos amigos, após experimentados,
Aceita-os, prende-os com arpões de aço,
Mas não dês primeiro a mão em demasia
A qualquer estoirado camarada.
Evita, teme
Questionar, mas, se entrares em luta
Que saias com o teu opositor temendo-te a ti.
Atende toda a gente, mas pensa por ti;
Aceita censuras, mas reserva a tua opinião.
Quanto a vestir, seja o que a tua bolsa pode:
Sem arrebiques; rico pode ser mas não taful
- O hábito, sabes, faz o monge
E, em França, posição e fortuna
Têm nisso, mais do que nós, gosto apurado.

William Shakespeare

sábado, 2 de junho de 2007

Estigma


Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos
O que os homens não querem.
Ao vento arremessamos
As verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

José Carlos Ary dos Santos

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Entre nós e as palavras



Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny